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A incrível jornada do meu cabelo – SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Tudo começou por volta dos meus 14 anos, e até hoje a minha história capilar é digna de uma novela mexicana. Tudo porque eu sou partidária do lema “se você quer bem feito, faça você mesma”. Entretanto, isso nem sempre se aplica, principalmente no assunto em questão.

O que acontece é o seguinte. Eu gosto de fazer tudo sozinha, unha, cabelo, maquiagem. E eu tenho uma explicação razoável pra isso. É que nem quando a gente era pequena e brincava de barbie, muitas vezes o mais legal era a pré brincadeira, quando a gente procurava a roupa, arrumava o cabelo, e tudo mais. Eu sigo assim até hoje, talvez por causa dessa minha mania de não querer crescer, só que agora a barbie sou eu. Eu adoro o processo até chegar ao resultado, eu gosto de participar do processo, eu gosto de eu mesma cortar e pintar meu cabelo, fazer minhas unhas, fazer meus próprios esmaltes, inventar minha maquiagem e aperfeiçoar, nem na minha formatura eu deixei me maquiarem. Só que tudo isso tem um problema, às vezes dá errado. Mas o que não me falta é coragem, eu sou muito corajosa pra fazer o que eu botei na cabeça. Eu nem sei se eu posso chamar de coragem ou deveria chamar de falta de juízo, o que me parece muito próprio considerando quem eu sou e que juízo é o que menos tem nesse corpinho que vos fala.

Aconteceu toda essa introdução só pra dizer que, desde os meus 14 anos, o meu cabelo passou por diversas experiências bem sucedidas, mas, e eu tenho que ser sincera agora, principalmente mal sucedidas. Confesso que eu não sou uma boa cabeleireira auto didata. Aliás, tentem escrever essa palavra sozinhas sem colar. Cabeleleira, cabelerereira, cabeleirera. Eu confesso que tive que colar do google.

Nos primórdios da minha juventude, eu pintei meu cabelo de papel crepom, porque todo mundo me dizia que basta umas cinco lavagens e saia. A minha prima, que era loira, inclusive, pintava de azul, verde e tal e saia depois.

Eu acreditei.

Seu saraiva: elaa acreditooou

No meu cabelo não saiu. Óbvio.

Acontece que eu cheguei a conclusão que o meu fio é muito poroso e absorve qualquer joça que coloquem nele.

O que aconteceu?

Eu fiquei parecendo a ariel até o meu cabelo crescer. E durante todo esse tempo eu tinha que evitar camisas brancas porque manchava as costas.

fiquei parecendo ariel

Brinks!!!!

Não, eu fiquei mesmo parecendo a Ariel, só que não essa.

fiquei parecendo essa daqui ó

Depois, outro episódio memorável foi a vez que eu estava na minha casa da praia, entediada (vocês vão perceber, no decorrer da história, que geralmente as grandes catastrofes capilares acontecem em momento de tédio ou de nervosismo) e resolvi que o doura pelos poderia servir para dar leves reflexos como se o cabelo tivesse sido queimado do sol. Nota-se que eu sempre fui uma pessoa além da minha época, porque nem era moda ainda as californianas e eu já queria. Bom, eu no auge da minha esperteza adolescentística, botei uma quantidade generosa de doura pelos na mão e passei no cabelo. Acho importante que eu conte que eu tava de coque. Acho importante também relembrar o fato de que o meu cabelo é poroso, absorve tudo rápido e os efeitos desejados são multiplicados nele.

Eu fiquei com duas mechas louras na frente, quando eu soltei o coque. Detalhe, meu cabelo clareia horrores no sol, mas ele fica amarelado. Era verão. No final do mês, eu tava com duas gemas de ovo na franja.

Agora me diz, me responde, PORQUE EU CONTINUEI COM ISSO??

O lógico seria eu sair correndo, comprar uma tintura qualquer e passar né? Mas eu não fiz isso, e olha que eu realmente tinha odiado o resultado.

Na sequência, teve o episódio que eu já contei aqui, da cor do cabelo da Giovanna Antonelli. Você leitora nova desde blog, vai lá e procura que eu to com preguiça de linkar.

Não para por aí, lógico que não.

Bom, depois que eu me formei, pairou a dúvida no ar. O QUE EU FAÇO AGORA?

Um dia depois da minha formatura eu fiz a prova da OAB, de ressaca, sem documento de identidade, errei a sala, fiquei duas horas na prova, tirei uma pestana no meio, sai da prova crente que não ia passar. Por isso nem me dei o trabalho de pensar que eu estudaria alguma coisa pra segunda fase.

Um belo dia, eu olho no Orkut de um colega meu cujo nome começa com A, que ele tinha passado, e ele fez um print screen da tela que dizia que ele tinha passado. Eu fui ler e adivinhem, o meu nome tava lá. Eu não sabia se eu ficava feliz ou se eu ficava triste, porque tinha o carnaval por ai e isso significava que eu teria que estudar horrores pra passar na segunda fase, que não é mole, aliás é complicadíssima, porque tem que fazer uma peça processual e responder a mão cinco questões.

ME caguei.

Mas carnaval é carnaval e só tem uma vez por ano, e a prova da OAB tem três vezes.

Então eu fui pro carnavas que eu também sou filha de Deus.

Resumindo, tive muito pouco tempo pra estudar.

Eu resolvi me matricular numa aula pra segunda fase por ensino a distancia, crente que eu ia abalar e ver todas as aulas, que são pela internet. Ledo engano, e eu já deveria saber disso. Não vi aula nenhuma.

Daí que uma semana antes da prova meus pais resolvem viajar e me deixam sozinha na casa. Nos primeiros três dias foi uma festa, era banho de piscina noturno, um monte de gente dormindo aqui, etc e tal.

banho de piscina noturno no segundo dia

Nos últimos dias, como sói acontecer comigo, o bixo pegou.

Era óbvio que eu não ia passar, eu não tinha estudado nada, eu nem sabia como fazer uma peça, eu tava com o *u na mão.

Sozinha em casa, me alimentando de miojo e nuggets, e quando acabou a miojo e nuggets eu comi batata frita congelada assada, me deu o nervoso.

Na segunda feira por aí eu tinha tido uma idéia com a minha amiga Rê, eu queria fazer californianas caseiras.

E uma vez uma idéia na minha cabeça, eu preciso fazer pra já, e eu queria eu mesma fazer.

Fui eu e a rê comprar kit luzes faça você mesma.

Eu já deveria saber que não daria certo né, é o tipo de coisa que grita EU VOU DAR MERDA antes de acontecer. É que nem videocassetada do Faustão, antes do negócio acontecer a gente já sabe que era óbvio que daria errado.

Mas acontece que, mesmo que eu e a rê tenhamos feito as mechas antes de sair pra um aniversário, mesmo que a gente tenha feito correndo, mesmo que o negócio pegasse no meu cabelo muito rapido e que enquanto uma fazia a outra já tirava o papel alumínio, rindo na pia, mesmo que esse processo todo tenha sido regado a cerveja, mesmo que parecesse coisa de filme, mesmo que eu estivesse rindo de nervosa e dizendo que ia da errado e pensando durante o processo no porquê de eu ter inventado uma coisa assim, se eu já não tinha aprendido a lição, o negócio até que deu certo.

Tinha ficado assim:

aniver da ana lu , a aniversariante (a que ta de braços abertos) eu e a re (de listrado) e outras amigas E  o meu cabelo novo

aniver da ana lu , a aniversariante (a que ta de braços abertos) eu e a re (de listrado) e outras amigas E o meu cabelo novo

Tentem ver a cor, as únicas fotos que eu tenho são essas

Tentem ver a cor, as únicas fotos que eu tenho são essas

só pra lembrar que eu sou a de oncinha

Resumindo, eu tinha gostado até.

Só que eu, não satisfeita, resolvi que queria mais.

Eu achei que a franja tinha ficado exagerada, e queria consertar. A minha idéia era fazer mais mechas nos outros fios que ficam em torno do rosto, assim não ficaria tão marcado.

Daí que eu fui com a rê e comprei mais um kit mechas.

Só que no dia seguinte eu fiquei sozinha em casa estudando, porque faltavam só três dias e eu achava que poderia aprender alguma coisa.

Daí que dois dias antes, me bateu uma crise nervosa, e eu comecei a chorar.

Chorar de arrependimento, porque eu sabia que se eu rodasse eu teria que fazer a primeira fase de novo, e a primeira fase é super dificil, e como eu estaria nervosa isso me prejudicaria e mesmo que eu estudasse, coisa que eu não fiz antes, era provavel que o meu nervosismo me atrapalhasse, e daí eu corria o risco de não passar, e eu teria jogado fora a sorte que eu tive em passar na primeira vez, e eu era uma burra que tinha jogado isso fora pra fazer festa, e que cavalo encilhado não passa na frente duas vezes, e que eu ia demorar pra ser advogada, e não sei o que e não sei o que lá. Resumindo, surtei.

Quando eu surto eu tenho as mais diversas reações. Geralmente eu paro tudo o que eu to fazendo e começo a arrumar o meu quarto obcecadamente, o que é bom porque é só nesses momentos que eu arrumo o meu quarto, então os meus surtos garantem um tempo de ordem domiciliar.

Mas naquele dia eu tava muito nervosa, e arrumar o meu quarto não era suficiente, e chorar no telefone com a minha mãe, que nessas horas já tava além do arrependida de deixar uma louca em casa sozinha antes da prova, porque ela me conhece e sabe o quão nervosa eu sou, tb não era suficiente, e tocar piano chorando PAUSA vai dizer que eu não podia fazer uma novela mexicana, voces conseguem pensar numa coisa mais dramatica do que uma pessoa tocando piano e chorando numa sala escura numa casa sem ninguem, de noite? eu se fosse meu vizinho ficaria com muito medo. Esse foi um momento muito cinematografico da minha vida DESPAUSA. Então, eu, tomada pela minha loucura em seu auge, procurando uma válvula de escape, olhando pros lados, num nervosismo brutal, me deparo com o que? com a caixa do kit mechas faça-você-mesma-e-cague-seu-cabelo.

Seguiria, então, outro momento muito dramático digno de uma novela mexicana.

Eu pego o kit, e começo a passar, sem muito sentigo, sem muito nexo. Daí eu começo a me achar uma maluca, começo a pensar que não vou passar, e começo a chorar, tudo isso enquanto eu faço as mechas.

Agora venham comigo e realizem, uma pessoa chorando num banheiro, com a cabeça cheia de papel aluminio segurando um pincel e passando creme no cabelo.

Vocês conseguem visualizar?

Um ser humano, com o cabelo cheio de papel aluminio, chorando e pintando o cabelo.

Eu nasci pra trabalhar na Globo.

Só que nesse meio tempo, eu cai na real e vi que aquilo tava ridiculo e que parecia um filme classe C, e comecei a rir.

Mas daí eu me senti muito louca, e comecei a chorar porque eu vi a merda que eu tava fazendo e como eu tava sendo idiota, descontrolada e que nada daquilo ia me ajudar a passar na prova.

Corri pro banho, mas era tarde demais.

O meu cabelo tinha ficado completamente amarelo na raiz, em toda a volta da cabeça, eu parecia a cruela cruel, porque ele tinha duas cores, era uma coisa muito louca e bizarra que eu não sei descrever.

oi

Bom, eu chorava e chorava mas não adiantava chorar sobre o blondor derramado.

Sentei e fui estudar. Sim, nessa condição emocional eu fui estudar. Só que eu me olhava no espelho e chorava daí eu parava, estudava, comia batata frita congelada assada, e voltava a chorar e estudar.

No dia da prova, ainda sozinha, pego meu carro e me vou pro local da prova, chorando, lógico. Chego lá e imagino todos olhando pra mim.

cinco horas de prova.

nos 15 minutos pra acabar, eu tava tentando fazer a peça, só que eu tinha me perdido no tempo, não sabia fazer a peça direito, porque eu tinha aprendido a fazer a peça que caiu na minha prova no mesmo dia, pela manhã, antes de ir comer um subway no shopping, daí me deu um piripaque, resolvi que não ia mais ficar lá e entreguei a prova do jeito que tava mesmo, ou seja, uma bosta.

Sai de la mal da cabeça. No sentido figurado e literal, afinal o visual da minha era pessimo e o interior também.

Eu saí do prédio e fui falar com Deus, eu disse que eu sabia que eu não merecia ter passado, aliás não merecia ter passado nem na primeira prova, porque eu não tinha estudado, e um monte de gente estuda um monte e não passa e eu não estudei, passei e desperdiçei a minha chance de passar na segunda fase, que eu sabia que eu deveria ter estudado, que eu pedia desculpa, que a culpa era totalmente minha. Eu sabia que a culpa era totalmente minha e isso me fazia me sentir muito mal. Eu tinha fracassado quando eu não podia ter fracassado. E além de tudo, eu tinha fracassado totalmente sem glamour, e aquele cabelo era a cereja que faltava no bolo de merda.

Mas eu falei tudo isso e pedi, que eu sabia que era demais, e que nem tinha como isso acontecer, e que eu também não merecia que acontecesse, mas que se tivesse como, se daria pra anular essa prova e eu ter a chance de fazer de novo, que eu só pensaria nisso e não sairia mais de casa.

Eu pedi.

Os dias que se seguiram foram de depressão total, eu achava que tava na merda, e tava mesmo, e o pior é que a culpa era toda minha, eu que não estudei e tive a oportunidade, e eu que pintei meu cabelo né. Mas o cabelo nem me preocupava, tanto é que eu nem me dei o trabalho de pintar ele de escuro, eu não tava nem aí, eu só pensava em como eu era idiota.

Eis que, um belo dia, a notícia. A segunda fase da prova da OAB tinha sido anulada.

Eu achava que era pegadinha, cadê as câmeras, cade o Ashton Kutcher?

Eu não podia acreditar que aquilo tinha acontecido comigo. Era demais. Eu não sabia como agradecer, e até hoje eu não sei.

Eu me passei no assunto do post, que era cabelo, e esse post já tava gigante antes de eu inserir esse assunto, mas é que não dava pra contar do cabelo sem contar disso.

E o que aconteceu?

Eu pintei o cabelo, me matriculei num cursinho de aulas presenciais, estudei, não sai de casa nem um dia sequer ao não ser pra ir pro cursinho e passei na prova.

Duas semanas depois fui chamada pra trabalhar no único lugar pro qual eu enviei curriculos e hoje eu to aqui, feliz demais, abençoada demais, e com o cabelo escuro.

Deixo vocês com a música que embalou esse momento que eu vivi, e que eu ouvia e chorava. Eu sou muito dramática mesmo, mas é real, eu chorava mesmo e ouvia sem parar. Vejam o vídeo todo, já tem a tradução nele, e vocês vão entender por que eu acho ele lindo e por que ele teve tudo a ver com essa fase.

it’s always the darkest before the sunrise

é sempre mais escuro antes de amanhecer.

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